terça-feira, 26 de maio de 2009

E foi assim que acordei uma destas manhãs como Kafka.

O sol da manhã iluminava-me os primeiros passos, com a indubitável certeza de que seria um dia privado da sua presença. De forma inconsciente, fui tomado por um fulgor pueril, e contra a força de todas as moralidades que me regem, decidi procurá-la.
Absorvido pelo constante frenesim da manha lisboeta, habitada por inúmeras vidas que se escrevem a cada momento, parei. Pareceu-me ver algo que lhe pertencia, espelhado na janela de umas pequenas águas-furtadas, bem lá no alto. Fugaz momento este, que teve longas e pesadas repercussões em mim. "Uma cor" pensei. Não se tratava de uma cor qualquer, despojada de sentido e de corpo. Era sua. Várias vezes naquele dia, tentei recriar aquela cor. Infrutífera tentação a minha, de tentar colmatar a sua ausência, com tintas e pincéis.
Decidi então escrever-lhe não lhe escrevendo. Não saberia o que lhe dizer... Seria um esforço inglório da minha parte coroar com palavras, os seus belos sorrisos, agradecendo os poucos nadas que lhe dou e que me dá.

E assim o quis alguma Entidade clandestina, que não respirasse o mesmo ar que eu por um dia, sob pena de não conseguir respirar em nenhum outro... e eu aquele sorriso.

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